26 de fevereiro de 2014 às 07:58h

Com discurso pesado, Hérlon Cavalcanti se desliga do PT e fala em ganância por poder dentro do partido

PT-quebrado
 

A triste realidade de uma estrela que se apaga..
 
É com muita tristeza e pesar que trago ao público nesta data, uma das decisões mais difíceis de toda a minha vida, a desfiliação do PT em todas as suas instâncias partidárias. Partido que em 1989 me apaixonei e fui aos poucos, com meus sonhos de jovem, militando e alimentando desejos atrelados a grandes utopias na direção de uma sociedade que gritava, gemia e desejava um Brasil com nova cara e forma de fazer política.
 
Foi assim que, aos poucos, fui entendendo o meu papel nesse cenário e o PT daquela época foi essa escola que me abriu as portas do destino em busca de novos vôos. Lembro-me que nos primeiros encontros com alguns companheiros, foi passada uma relação de três livros para que eu fizesse algumas leituras; “O desafio Educacional do Professor Florestan Fernandes, História Econômica do Brasil do professor e comunista do PCB Caio Prado Júnior e o livro Sociologia Crítica alternativas de Mudanças do Professor Pedrinho Guareschi”. Durante três meses mergulhei no estudo dessas obras e, aos poucos, fui entendendo que país é esse? Logo em seguida, fui convidado para discutir sobre aquelas leituras, um momento marcante da minha juventude, minha formação política, Marxista e socialista, nascia ali.
 
O tempo foi passando e em cada campanha política um desafio para conquistar. Sempre dei o melhor de mim e não me arrependo. Conseguimos avançar e aos poucos foram surgindo os primeiros parlamentares eleitos pelo PT em todo país. Vivíamos em uma sociedade aprisionada por falsos discursos e moralistas, práticas distorcidas. Apesar desse contexto tivemos as primeiras vitórias
 
Sei também que não posso negar, jamais, os avanços em muitos setores da sociedade que o PT alcançou durante esses 12 anos a frente do governo Federal, mas, também, não posso negar o fato de que a população na investida de melhorar o poder aquisitivo vem cada vez mais se endividando; os bancos privados e públicos batendo recordes de lucros e o governo que acaba sucateando e privatizando o patrimônio público com gastos e despesas exuberante com metas precárias e planejamento estratégico produtivista, mas a favor de quem e o PIB ficando cada vez menor.
 
O que de fato me levou a tomar a decisão de sair do Partido dos Trabalhadores e das trabalhadoras? Maturei, pensei muito, conversei, pedi conselhos, reuni o nosso movimento ‘Semeando Estrelas’, escutei as vozes das ruas, voltei a ler os livros citados lá atrás. Nesse contexto, cheguei as tantas reflexões e indagações que me fez encarar, de frente, que eu não caberia nesse espaço/lugar. Abaixo socializo em pontos algumas dessas indignações partidárias:
 
1° ponto: A maldita “Governabilidade” em busca de novos aliados levou o PT Nacional a esquecer as suas bandeiras de lutas, nomes como: José Sarney, Fernando Collor de Melo, Romeu Tuma Júnior, Renan Calheiros, Paulo Maluf, Marcos Valério, figuras tarimbadas na política, direitistas de carteirinhas, subiram nos palanques eleitorais e se apresentavam no grupo de “aliados” na febre do “Lulismo” que se espalhou em todo Brasil. Maus exemplos, contaminando os estados e os municípios por onde o PT governava ou era aliado, uma varredura e falta de coerência, ética e compromisso social, substituído pela busca de lucros e poder. O resultado disso, governos fascistas, desfiliações em massa, mortes de alguns militantes e o escândalo do mensalão.
 
2° ponto: O PT esqueceu as suas bandeiras de lutas com os trabalhadores/trabalhadoras e fortaleceu a distância entre a prática e a teoria. Uma leitura que se apresenta notória nos exemplos e questionamentos que são feitos sobre o que é ser de esquerda ao invés de estar na luta se refugiar em gabinetes e dizer que senta em mesas de negociação que faz comunicados e apresenta crescimento em nome do achatamento da dignidade do ser humano trabalhador, colocando a camada popular na lógica do consumo e não do direito. Gestões que oferecem serviços que custam caro a uma ética e identidade política eleitoral, partidária e social. Pergunto-me, isso não tem cheiro de uma lógica capitalista e neoliberal?
 
3° ponto: A falta de diálogo de muitos dirigentes com os/as filiados/filiadas, promovendo mais um afastamento das suas bases com os sindicatos, associações de bairros, ou quando se aproxima é no viés da domesticação e arrebatamento em meros tempos de processo eleitoral; a falta de formação política em seus diretórios, a entrada maciça de milhares de “filiados/filiadas” no estrelismos midiático, levou a falência do socialismo de verdade. Imaginemos o tamanho do que essa situação demandou as esperanças de um horizonte político diferente.
 
4° ponto: O clientelismo e a busca insensata por cargos fizeram o PT se igualar, perante a sociedade, como um partido qualquer, um partido ‘partido em pedaços’ e em nome da governabilidade tudo. Parece até grito de torcida organizada e não palavras de ordem que me remetem a bons tempos de lutas sociais, onde as palavras, as frases tinham peso de mobilização numa outra perspectiva.
 
5° ponto: O modelo econômico neoliberal, visando lucros e esquecendo o desenvolvimento humano, social e justo se revela no discurso de aquecer a economia no desejo da superação das injustiças como prato principal e, no entanto fazer o cozimento no forno do capital. Para mim isso significa não reconhecer que o gosto vai sair impregnado de outro sabor.
 
6° ponto: O pragmatismo político. As vozes das ruas disseram: Chega PT, Acorda PT, queremos modelo FIFA em todos os setores. Isso dói, isso machuca e nos coloca frente a frente com um modelo perverso de fazer e pensar política. Até porque, podemos fazer uma diferenciação entre ter recursos públicos para muitas coisas e os seus destinos e os seus fins. A questão não é o padrão Fifa e sim o que temos como gestão pública para uso dos recursos e a ética de sua aplicabilidade e em nome de quem.
 
7° Ponto: A briga interna das suas correntes, tendências ou coletivos, em busca de “espaços” e interesses pessoais, uma “liderança” que não aceita opiniões e sim balançadores de cabeças, uma dura realidade que se alastra em todo país, e sem pisar no freio, atropelando seu maior patrimônio: os militantes e filiados.
 
8° Ponto: O PT adotou um discurso nacional de comparar governos, quem faz mais ou menos, qual o governo que teve mais corrupção, isso não cabe mais a uma sociedade pensante, é preciso fazer sempre o melhor. E querer nivelar quem pensa pelo nível dos grandes intelectuais tem sido feito na lógica do discurso competente. Negando ou sonegando a capacidade de pensar e resolver suas demandas a partir do conhecimento popular. Colocando os conhecimentos em rivalidades e que o povo precisa estar na lógica do refém de quem pensa e não de quem deseja ampliar seu potencial de sujeito histórico e de cultura.
 
9° ponto: Uma grande contradição do discurso do PT é a reeleição da presidente Dilma. Para seus dirigentes (ou donos do PT). O que remete a lógica do poderio e isso a outras lógicas não é mesmo? Não está em jogo à prioridade do compromisso com os eleitores, os acordos para chegar ao poder é o PODER? Existe preocupação com as alianças em todos os níveis, com dirigentes dos partidos de (direita, centro direita ou “esquerda”) que pensam qual o pedaço do bolo que vão comer?
 
10° ponto: A ganância do poder pelo poder levou a um processo de esgotamento político, de domesticação de militância e de pensar a bases pela lógica do cooptação. Práticas que vem ganhando como saldo uma sociedade que não acredita mais em partidos políticos, nem em figuras políticas a não ser na lógica do que terá em troca. O povo vem sendo conduzido a não acreditar na luta, mas na conveniência das lógicas políticas. Estão competentes sim, mas na sofisticação do capital.
 
11° Ponto: O PT NÃO comparecer nos atos públicos da cidade, ou alguns integrantes irem mascarado para não mostrar seus rostos com medo, porque está vinculado a governo (A ou B),e pior pra prestar-se ao papel do ato de vigiar para perseguir é inaceitável pra mim e pra qualquer petista de verdade. O partido nasceu dessas bandeiras de lutas e podemos observar nas ruas em dezenas de passeatas, já ocorridas em defesa dos trabalhadores/trabalhadoras, que hoje a presença do PT é sentida pela Ausência.
 
13° Ponto: Chego à conclusão que após 25 anos de militância não posso mais me posicionar no PT e sua instância partidária com o desejo da mudança na forma de pensar e governar. Muito petistas abandonaram o estatuto do partido, esquecendo regras e principalmente que a base de tudo está na diferença, no diálogo e nas idéias. Urge retomar a compreensão de diálogo, pois a primeira prática que o fere é sentar é fazer comunicados, discursos unilaterais, e orientações unidirecionais, mediar interesses. Os que temos, na sua grande maioria, são burgueses e pequenos burgueses, usando as vestes de socialistas e com práticas que fragilizam o processo humano político-social.
 
Pra finalizar, saio do PT pela porta da frente, pois se alguém pensava que eu estava no PT e me desfilaria por que ocupava um cargo no Governo do Estado na Secretaria Estadual de Cultura, pensou errado, se enganou, quebrou a cara! Falei por diversas vezes na imprensa que só iria me posicionar sobre esse caso, quando recebesse um comunicado oficial do PT Estadual. O partido tem todos os meus contatos e sabe onde me encontrar. Não iria jamais ser desligado de um cargo político por tabela ou mesmo por interesses de muitos.
 
Pois bem! Recebi esse comunicado dia 14/02/2014, uma sexta feira pelas mãos do Presidente Municipal Adilson Lira, praticamente às 22h. Na segunda feira dia 17/02/2014 encaminhei, pela manhã, minha CARTA SOLOCITANDO EXONERAÇÃO do cargo de Assessor de Articulação dos Agrestes, faltando agora, apenas, os tramites da secretaria e a publicação no diário oficial do Estado. No dia 21/02/2014 em reunião, a noite, com o presidente do PT municipal Adilson Lira, entreguei minha CARTA DE DESFILIAÇÃO do PT, que vai ser apresentada oficialmente na próxima reunião do diretório no PT local.
 
Vou continuar sempre construindo novos caminhos, e participando ativamente das lutas dos/das trabalhadores/trabalhadoras, pois isso é o que me inspira e que me faz viver enquanto sujeito político. Termino com um pensamento do nobre poeta Gonzaguinha em sua música ‘Nunca pare de sonhar’ (…) Nunca se entregue nasça sempre com as manhãs, deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar, fé na vida,fé no homem fé no que virá(…).
 
*Hérlon Cavalcanti- Poeta, Escritor e Jornalista.
 

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