15 de agosto de 2014 às 09:07h

O amigo “por parte de país”

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Eu nunca votei em Eduardo Campos. E, ainda, não havia decidido meu voto para presidente. Costumo deixar essa decisão sempre para o último momento, quando toda a campanha já deixou a mídia, quando a poluição dos carros de som deixa as ruas. Nem sei se votaria em Eduardo.
 
E digo isso para fugir um pouco da hipocrisia que costuma cercar esses momentos de comoção. Mas, meu sentimento hoje pode ser resumido na frase que o padre Pedro Rubens, reitor da Universidade Católica de Pernambuco, proferiu para a imprensa que acompanha a movimentação na casa de Eduardo, em Recife:
 
“É uma saudade do futuro”.
 
Eduardo não era perfeito, ninguém nesse mundo é. Mas ele era, entre as jovens lideranças desse país, quem estava mais próximo de um ideal político que nós, brasileiros, sonhamos: uma nação voltada para o futuro, centrada em desenvolvimento econômico com justiça social.
 
Porque os dois, desenvolvimento econômico e justiça social, precisam caminhar juntos. O primeiro, sem o segundo, resulta em desigualdade e pobreza. O segundo, sem o primeiro (como vivemos hoje), resulta em uma sociedade pobre, deseducada e escrava de governos.
 
Quando o avião caiu e a notícia se confirmou, senti que perdia um amigo. Não por ele ser meu amigo. Estávamos longe disso. Nossa relação transcorreu ao longo de algumas poucas entrevistas concedidas durante a trajetória dele. Desde quando Eduardo ainda era deputado, depois ministro e finalmente governador. Por sinal, não eram momentos muito fáceis.
 
Lembro de pelo menos duas vezes em que ele se irritou com perguntas minhas e não escondia essa irritação no meio da entrevista. Era incisivo, enfático, insistia que estava com a razão e não havia o que discutir.
 
Mas, bastava chamar um intervalo e ele já estava sorrindo novamente e conversando com você como se fosse um velho amigo. E ele era, sempre, de todos que quisessem ser assim. A política, se exercida com honra e disposição, engrandece o ser humano. Eduardo exercitava isso indefinidamente ao longo de todos os seus dias.
 
Campos, aliás, tinha a imensa capacidade de agregar, de reunir. Conviveu com Arraes, conviveu com Lula. Aprendeu muito. Ele cultivava amizades e alianças com uma facilidade incrível. Nos últimos meses, antes da disputa presidencial, conseguiu desfazer todas as brigas que acumulou ao longo dos anos com adversários de décadas, como o senador Jarbas Vasconcelos. Fazer amizade é muito mais fácil do que reatar uma relação cortada. Eduardo fazia as duas coisas com singular sucesso.
 
Quando o avião caiu, levando embora Eduardo e também alguns colegas de profissão, pessoas com quem cheguei a conviver profissionalmente (Percol e Severo), meu choque inicial deu lugar a uma constatação: assim como existem os irmãos e irmãs “por parte de pai”, termo que designa parentes “emprestados”. Posso dizer que aquele acidente levou em Campos um “amigo por parte de país”.
 
Era o amigo que o sonho de um país melhor nos “emprestou”.
 
Ele se foi, o sonho continua.
 


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