19 de outubro de 2015 às 09:10h

Violência explode em Caruaru

 
Do Jornal do Commercio
 
O orgulho do povo de Caruaru, acostumado a se vangloriar de ter a maior festa de São João e a mais famosa feira livre do mundo, sofreu um grande baque em 2015. A cidade foi alçada ao topo do ranking das mais violentas do Estado, sendo responsável por nada menos que 10,3% dos homicídios ocorridos em Pernambuco entre janeiro e agosto, segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS). Os 142 assassinatos registrados nos oito primeiros meses no município representam um aumento de 75% em relação ao mesmo período do ano passado. Os crimes contra o patrimônio – roubos, furtos, sequestros, entre outros – aumentaram 45% neste ano na capital do forró comparado com 2014. Nas ruas, é assunto corrente o fato de Caruaru ter perdido de vez o charme de ser um oásis de tranquilidade e desenvolvimento no interior, dando a guinada definitiva rumo ao status de cidade grande e violenta.
 
O medo e a desconfiança são constantes entre a população, principalmente à noite, quando pouca gente se aventura a sair à rua. Como em milhares de periferias do Brasil, a de Caruaru é palco de uma batalha onde vulnerabilidade social e tráfico de drogas formam uma combinação explosiva. Um gesto político dá a dimensão do problema: na última sexta-feira, o governardo Paulo Câmara esteve na cidade para acompanhar a cerimônia do ingresso de 100 novos policiais militares no 4º Batalhão da PM, que serve a região.
 
Motivos
 
Um dos motivos para o aumento tão grande nos índices de criminalidade, de acordo com comerciantes locais e a própria polícia, é justamente a sempre fervilhante economia local. “Caruaru tem uma tradição de comércio forte, além da Feira da Sulanca, que atrai pessoas de vários Estados. Infelizmente, o crescimento trouxe a criminalidade”, diz o presidente do Sindloja, Alberes Lopes. “Os criminosos sabem da movimentação financeira intensa que existe na cidade, que, mesmo no período de crise, continua com bons indicadores econômicos”, comenta o delegado Erick Lessa, gestor operacional da Polícia Civil para o Interior. Devido à grande informalidade no comércio local, a circulação de dinheiro vivo é grande nos pátios de feira: são R$ 40 milhões movimentados todas as semanas, de acordo com lojistas e sulanqueiros. Maior chamariz, impossível.
 
O outro motor do crime é o tráfico de drogas, impulsionado pelo grande fluxo de pessoas em uma cidade que é cortada por duas rodovias federais: as BRs 232 e 104. Para se ter uma ideia do volume da circulação de entorpecentes, a polícia apreendeu 51% a mais de crack, entre janeiro e agosto deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. Na Delegacia de Plantão, no Centro da cidade, praticamente todos os crimes registrados nas noites dos finais de semana têm alguma relação com drogas. Na noite em que a reportagem acompanhou o plantão, o movimento foi intenso. Um rapaz de 20 anos foi detido por roubar um celular de um jovem. “Ele diz que foi porque estava desempregado, mas a gente sabe que ele vinha fazendo vários desses roubos para comprar crack”, conta o policial militar que o levou à delegacia. Logo depois, um homem com 24 anos é preso com 35 gramas de cocaína. Três adolescentes são pegas com maconha. Mais uma equipe da PM chega com uma apreensão de crack. “É a noite inteira assim, amigo. Serviço é o que não falta em Caruaru”, conta um sargento do serviço reservado da Polícia Militar, já saindo para checar uma ocorrência de tiros disparados na zona rural da cidade.
 
À noite, as ruas escuras de bairros da periferia como Santa Rosa, Salgado, Indianópolis, Vassoural e São João da Escócia são alvos de blitz da Polícia Militar. A justificativa é o número de ocorrências nas comunidades. A reportagem acompanhou uma das abordagens pelas vielas do bairro de Santa Rosa, onde quase ninguém sai das casas à noite. As poucas pessoas nas ruas são revistadas e apenas liberadas após mostrarem documentos. Os bairros de classe média e alta, como São Francisco e Universitário, também estão na mira de arrombadores e quadrilhas especializadas em invadir condomínios.
 

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